Wednesday 16th of October 2019 12:37:17 AM

2 CULTURAS



A visão equivocada das formações profissionais especializadas, que vigorou durante décadas dentro da estreita concepção capitalista do lucro imediato pela exploração industrialista do trabalhador, acentuou consideravelmente a divisão intelectual entre letras e humanismos de um lado, e ciências e tecnologia de outro, ao ponto de parecerem estes domínios irreconciliáveis. Nada poderia estar mais longe da realidade; por exemplo, a beleza das teorias físicas desenvolvidas até meados do século XX, nunca mais vista, só foi possível pela sensibilidade artística de gênios como Einstein, Bohr, Shrödinger e outros, homens capazes de escrever equações com a elegância das partituras de Mozart, Bach e Chopin. Os resultados do afastamento entre as chamadas “duas culturas” foram o desastre generalizado da educação moderna e a vulgarização do conceito de cultura, cujas consequências mais nefastas se manifestam no pedantismo inculto dos cientistas e na abstinência formal dos literatos, com perdas visíveis para todos. Acontece que fazer boa ciência depende de uma apreciável capacidade para perceber o que caracteriza o comportamento humano, o quê faz dos homens o que são; isto só pode ser conseguido se nos depararmos frequentemente com a natureza humana, e não há nada mais ilustrativo de tal natureza do que o conteúdo dos grandes clássicos de todos os tempos. Por outro lado, o conhecimento das linguagens formais e das representações simbólicas dos fenômenos nos garante racionalidade e compreensão da nossa finitude e do quão bem engendrado é o universo ao qual pertencemos. De Platão, Aristóteles e Demócrito a Tolstoi, Fernando Pessoa e Heisenberg, há uma vastidão de percepções capaz de inspirar as mais complexas teorias e os mais instigantes romances. É o abando da cultura que nos trouxe à “civilização do espetáculo” e da mediocridade rumo a uma existência estéril e destituída de significado.

A partir desta reflexão, a Gauge-F lançará em futuro próximo o domínio “2 Culturas” para professores e pesquisadores que desejem se pronunciar com trabalhos que resgatem a inevitável conexão entre humanismos e formalismos, entre arte e ciência, buscando elevar a tão destroçada educação brasileira, legado das cleptocracias que sucessivamente nos governam.


Nilo Serpa.



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